quarta-feira, 16 de novembro de 2011

CÁ ENTRE NÓS

Rostos sem rosto
Feitos flores
Espinhos à janela emoldurados
Os outros mirados nas tintas
Indiferença
Oh santa indiferença
Ninguém é ninguém
O corre corre
O trabalho escravizante sem esperança
A crise do povo
Glória dos "artistas"
Corta-se-lhe o cabelo
Arranca-se-lhe uma orelha
As duas pernas já agora
Desdentam-no
Tudo para o seu próprio bem
Para o bem do povo

Rostos sem rosto
Corações de feiticeiro
Semeiam crises
Pregam pensamento único de que não há alternativa
Colhem os frutos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

UMA PALAVRA SOBRE A ELIMINAÇÃO DA GUINÉ-BISSAU DO CAN 2012

Agora que a Guiné-Bissau está eliminada da fase final do CAN 2012, em lugar de carpir mágoas, continuar com essa fuga para a frente como se nada fosse, é chegada a hora de fazer o que devia ter sido feito: arrumar, antes de mais,  a casa. Uma casa esfomeada (salários de fome e preços altíssimos), às escuras (quase que não há luz eléctrica em Bissau, quanto mais no interior do país), esburacada, instável,  a cair de velha, com apenas dois estádios de futebol indignos da alta competição, altamente dependente do mundo exterior...
O caminho a seguir, meus irmãos, é apostar no desenvolvimento do país, criando condições basilares para que o ser guineense se sinta como peixe na água, isto é, em casa e deixe de se sentir como carta fora do baralho na sua própria terra. Urge dignificá-lo e valorizá-lo.
Desde logo haverá que dar o máximo para que o nosso Campeonato Nacional reganhe energia e valha mesmo a pena.
Daí a necessidade de esquecermos, já que somos pobres e desorganizados, a alta competição até termos organizado minimamente a nossa pátria. Assim não dá. A Guiné tem de ser dignamente representada. Não há pressa. Esqueçamos o próximo Mundial de Futebol. Pois, o tempo é de endireitar a nossa querida Guiné. Havemos de lá chegar um dia, se trabalharmos no duro.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

POESIA II

QUEM ME DERA

Quem Me Dera Ser
O ar que respiras
A água do duche refresca pele veludo
Sabonete ensaboar purificador
Creme teu

Quem Me Dera
Quem Me Dera Ser
A tua sombra companhia
A casa abrigo
O teu porto seguro

Quem Me Dera
Quem Me Dera Ser
O teu leito cama recarga-baterias
 Lençol teu
Teu cobertor
Sutiã seios mamar
Bebé de peito feito
Preenche vergonhas paraíso pecado mel.
Quem Me Dera, oh sabura!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

24 DE SETEMBRO

Canta-se, como manda a praxe, os parabens à menina Guiné-Bissau pelos trinta e muitos anos que este ano regista; ainda que sob o signo de pesar pela morte de um dos seus ilustres "pais fundadores", o Presidente Aristides Pereira.
O desaparecimento físico dos "foundings fathers" da nossa nacionalidade constitui, seguramente, uma responsabilidsade acrescida para todos os guineenses, sobretudo, para o PAIGC, no sentido da conservação e aperfeiçoamento dos ideais da luta que muito engrandeceram o nosso minúsculo país.

Com efeito, os feitos da nossa Luta de libertação Nacional ficaram registados a ouro no grande Livro da História da Humanidade sobre a demanda da liberdade pelos povos sob domínio colonial. Não era caso para menos. É que havia liderança. Amílcar Cabral era tão só um génio, ainda por cima, cheio de virtudes. E o mais importante de tudo, era bem acompanhado pelo seu staff e companhia.

Escusado será dizer que o PAIGC da Luta de Libertação Nacional e o Cabo Verde dos nossos dias são a prova mais que provada de que havendo liderança ("lidership" para os anglo-saxónicos) opera-se milagres. E que milagres! Daí o tão falado "milagre" caboverdiano. Como diria Thomas Edison (e outros, já agora), para alguns o maior inventor americano de todos os tempos, é mais uma questão de transpiração do que de inspiração; ou dito de outro modo, trabalho, trabalho, trabalho.
A Guiné, inspirando-se na sua Gloriosa Luta de Libertação Nacional, valorizando a sua riqueza inesgotável, que são os seus recursos humanos (hoje, em abundância e sem rumo. Vá-se lá saber porquê), conseguirá sair, com os seus próprios pés e em poucos anos, do buraco em que se encontra enfiada.
Pelo contrário, o espírito de exclusão, de amiguismo, nepotismo, arrogância, falta de consideração para com o subalterno, maldade pura e dura, corrupção a olhos vistos não nos levarão a lado nenhum.
Isto de para conhecer verdadeiramente um guineense, é preciso dar-lhe o poder, é uma pena.
Por que é que somos, em via de regra, tão maus para os nossos irmãos quando temos as rédeas do poder?! Assim, todos perdemos, e pior que tudo, para nada. É só ódio e atraso.

Que os pais fundadores nos iluminem e que a Guiné seja de todos os guineenses e não só de alguns (dos que têm dinheiro ou "costa largo", ou seja, os meninos bonitos do costume.)!
Viva o 24 de Setembro!
Viva a Guiné-Bissau!
Que o Presidente Aristides Pereira descanse em Paz!

domingo, 18 de setembro de 2011

POESIA I

OS OLHOS

Os olhos com que te vejo não são os olhos da beleza passageira da paixão do aqui e agora satisfeito e nunca mais...
Os olhos com que te vejo não são os olhos do Uau, que gira, fingido...
Os olhos com que te vejo não são os olhos dos outros, do convencional...
Os olhos com que te vejo não são os olhos da parenta tradicional...
Os olhos com que te vejo são os olhos do coração apaixonado até ao amor para todo o sempre abençoado.



BENDITO VERÃO

Uma onda avassaladora de paixão me encobre e empurra, cúmplice, em direcção à praia...
sobre ti...
estendida na arreia branca, boa como nunca
os meus lábios aterram nos teus
do corpo o mesmo se diga
sob a bênção do sol todo sorrisos.

A SURPREENDENTE EUROPA

" A civilização ocidental tem um avanço considerável no plano material. Se ela se revelasse tão fecunda em técnicas de desenvolvimento interior como na sua tecnologia, estaria na vanguarda do mundo moderno. Mas quando o homem negligencia o cultivo da sua dimensão interior, transforma-se numa engrenagem da máquina, torna-se escravo das coisas; e assim, de humano, fica apenas com o nome", Dalai Lama, in SAMSARA, A Vida, A Morte, O Renascimento, p 59, Edições ASA.


A Europa, por extensão o Ocidente, logrou chegar a um estádio de desenvolvimento que encanta até o mais duro e atrasado dos Homens da Caverna. O progresso do homem/mulher branco é tal que algumas almas brancas e até mesmo negras continuam a acreditar piamente na suposta superioridade da raça branca, isto apesar dos desmentidos categóricos da própria ciência moderna.

De facto, a Europa surpreende. Lembro-me de um "homem grande" muçulmano em Bula, que conheci nos finais da década de oitenta do século passado, que não escondia de ninguém o fascínio que nutria pela Transportadora Aérea Portuguesa (TAP) e pela sua pontualidade na época colonial. Até nós (eu e alguns professores do antigo Ciclo, 5ª e 6ª classes) sempre que passeávamos pela única estrada alcatroada de Bula, imaginávamos a percorrer uma luxuosa avenida europeia. E não raras vezes, chamávamos uns aos outros, a brincar, obviamente, "ó preto", "ó branco", no sentido pejorativo no primeiro caso e positivo no segundo. Assim, não surpreende que muitos africanos - e não só - não consigam resistir a avassaladora tentação de abandonar a terra natal em demanda de um futuro melhor na Europa avançada.

Como não há bela sem senão, a Europa não consegue ser perfeita. Daí experimentar deveras dificuldades em conciliar, como recomenda Naisbitt, o "High Tech" (alta tecnologia, desenvolvimento tecnológico) com o "High Touch" (ou seja, companhia, calor humano, tempo para a família; elevação espiritual e moral, acrescento eu).

Este artigo nasce da visualização diária do meu canal televisivo internacional favorito, a Aljazeera. No seu programa SURPRISINGEUROPE, apresentado por um black, surpreende-nos com as surpresas europeias que aguardam os imigrantes africanos menos avisados. Surpresas essas contadas pelas próprias "vítimas", uns verdadeiros reporteres ocasionais:
pessoas presas em centros de detenção na Holanda, por falta de papéis, e que se dizem objectos de maus tratos e aconselham os "manos" a nunca se atreverem a desembarcar um pé na Holanda;
relatos extasiados sobre a famosa TOMATINA, a "Guerra dos Tomates", que junta anualmente milhares de foliões em Bunol, Espanha; isto para não falar da corrida de touros de Pamplona ( a celebérrima Festa de São Firmino, de todo incompreensível para um africano.), na qual touros desvairados machucam e até matam pessoas em êxtase;
holandeses que se fazem à água gélida, logo nas primeiras horas da matina, para se purificarem e entrarem com o pé direito no Novo Ano; o racismo saloio de alguns brancos...
A reportagem que mais me impressionou tinha que ver, digamos, com a "Terapia do Riso". Um black, o reporter, extasiado com o que via, estaciona a sua bicicleta num extenso espaço verde e começa por admirar, mudo de surpresa, mulheres estendidas ao comprido e...mortinhas de riso. De resto, gargalhadas havia-as para dar e vender. Segundo uma senhora que ouviu, por sinal, participante na terapia, os europeus levam a vida demasiado a peito, trabalham muito e o riso não é para aí chamado. Daí necessitarem duma cura dessas. O nosso herói lá foi convidado a experimentar a coisa. Não esteve com cerimónias. Deitou-se sobre uma toalha e...desatou a "kakarejar", "ka, ka, ka...". Minutos depois, pós-se de pé, e..."ka, ka, ka...". Valeu. Tinha ganho o dia e, já agora, saúde. E você, meu caro leitor, entre na onda e ria a bom rir. Não precisa de motivo: ka, ka, ka...Surpreenda-se, libertando o riso que há em si todos os santos dias! Seja o primeiro e o último a rir. Que faz bem, faz. Aproveite e seja feliz! Ka, ka, ka...

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

MANSOA DOS BONS VELHOS TEMPOS

Sempre que havia jogos do Campeonato Nacional, o restaurante de Só Zé enchia de fregueses. O meu amigo Alberto do "Comité de Estado" encheu-me a barriguinha muita vez aí. De resto, nos anos de fome da década de setenta do Século XX, o restaurante confortou muitos estómagos com os seus pães pequenos. Era um sonho comer nesse espaço. Como era um sonho fazer compras na loja de Nhu Quinzinho, na praça.
A praça emprestava à cidade um certo glamour, com as suas lojas recheadas de produtos, discoteca "Bona Gosta" e o Cine Club " Os Balantas".
Havia filmes para todos os gostos e feitios: fitas indianas do Bollywood (como o "Caminho para a Felicidade", emocionaram-nos até às lágrimas); Cowboys (os famosos Bud Spencer e Trinitá); o Charleot, que transformou muitos adolescentes em palhaços a tempo inteiro; o bonito e valente Sandokan; o Tarzan; o Dragão...
Ver os cartazes dos filmes tornara-se um must. Os nossos corações palpitavam descompassadamente de tanta excitação, de êxtase.

O nosso problema (meu e dos meus primos Aquiquiles e Tumbalumbé, este último, agora mais conhecido por "Di Noite" e "Munchen" ) era arranjar bilhetes.
Contudo, como a necessidade aguça sempre o engenho, lá conseguíamos ver as películas da nossa predilecção, fazendo recurso à imaginação e à criatividade:
Ora vendendo farelo, alumínio, ou pedindo aos mais velhos umas moedinhas, dizendo "Tio, Completan"; ora madrugando ao Cine Club, entrando pela janela, enfiando o corpo debaixo dos bancos compridos e aguardando que a sessão começasse. As formigas aproveitavam a ocasião para obter o seu quinhão, picando-nos.
Uma noite, Nhafrat, um dos mais carrascos funcionários do cinema, surpreendeu-nos, mal o filme começara, atrás da parede que servia de ecrã; foi uma debandada geral.

Os jogadores dos Balantas de Mansoa mais pareciam jogadores da Selecção dos Camarões. Eram uns verdadeiros touros da bola. Jaime Graça, avançado, era um super-sónico, corria que se fartava; Jaime Delgado, uma torre; Vicente, o guarda-redes, tomava conta da baliza com uma só mão... É escusado dizer que provocavam pequenos sismos sempre que se apresentavam para jogar a bola.
Aqui há anos, em Lisboa, um conterrâneo, pequenote que nem um bebé, disse-me que tinha jogado nos Balantas e na Selecção Nacional, fiquei parvo de assombro. Como era possível!

O mercado tinha um lindo e bem cuidado  jardim, onde se descansava, se rezava...
Mais tarde, passou a parque de diversões no tempo dos dinâmicos Fufu e Rui Lopes.
Hoje, não passa de um amontoado de casas, lojas, armazens...

Restaurante, cinema, jardim, parque de diversões... tudo passou à história; como passou à história a própria praça, arruinada, carcomida, fantasmagórica...
Fantasmagóricas estão também, para não destoar, as estradas Mansoa/Bissorã, Mansoa/Farim. Um horror.

MANSOA DOS BONS VELHOS TEMPOS chegou a ostentar um Carnaval inesquecível, com as criações de Totino, o homem dragão.
Tinha luz eléctrica, havia autoridade e o Campeonato Defeso era de luxo.  Equipas como Belém, autêntico Barça, de Mama Saliu, Sidico, Arlindo...; Anderlecht, de Nogueira, Sirifo Cassama...; Bairro Luanda, de Sarifo, Mama Saliu Bá, Mutaro Guba... Deixaram saudades que perduram no tempo.

O Mansoa de hoje, tem os seus encantos, só para citar um exemplo, tem a Rádio Sol Mansi, o Hospital... Ainda assim, não chega aos calcanhares do MANSOA DOS BONS VELHOS TEMPOS.